A pesquisa de conclusão de curso de Lucas Moreira, vencedor do Prêmio ESOCITE.br 2026 Menção Honrosa de TCC de Graduação, investiga como comunidades tradicionais do Oeste da Bahia constroem narrativas próprias sobre a crise hídrica e mobilizam diferentes formas de conhecimento para contestar versões hegemônicas sobre os conflitos ambientais na região. Desenvolvido no Departamento de Sociologia da Universidade de Brasília (UnB), sob orientação do sociólogo Tiago Ribeiro Duarte, o trabalho articula conflitos socioambientais, epistemologias e Estudos Sociais da Ciência e Tecnologia (CTS) para compreender como diferentes atores disputam a legitimidade sobre o que conta como conhecimento válido diante da emergência hídrica no Cerrado.
Intitulada “Contra-narrativas de comunidades tradicionais sobre a crise hídrica no Oeste da Bahia: mobilização de contra-expertises na argumentação do problema ambiental”, a pesquisa parte da constatação de que os conflitos por água têm se intensificado mesmo em regiões historicamente reconhecidas pela abundância hídrica. O Oeste baiano, marcado pela expansão do agronegócio e pela crescente pressão sobre rios, aquíferos e nascentes do Cerrado, tornou-se um território central dessas disputas. Nesse contexto, Lucas buscou compreender como algumas comunidades tradicionais elaboram explicações próprias sobre a crise da água e articulam estratégias para tornar suas narrativas visíveis em arenas públicas e políticas.
A pesquisa foi fortemente influenciada pelas investigações desenvolvidas no âmbito do projeto Soylândia, coordenado por Tiago Duarte que estuda os impactos da expansão agrícola no Oeste da Bahia. Segundo Lucas, o interesse pela pesquisa surgiu tanto da preocupação com os conflitos socioambientais quanto das disputas epistêmicas presentes nesses contextos. Em vez de compreender o conflito apenas como disputa material por recursos naturais, o trabalho destaca seu caráter profundamente epistêmico, ou seja, trata-se também de uma disputa sobre quem pode produzir conhecimento legítimo sobre o ambiente, os rios e os impactos ambientais.
Um dos principais argumentos do trabalho é que comunidades tradicionais não atuam apenas como “afetadas” pelos problemas ambientais, mas como produtoras ativas de conhecimento. Ao longo da pesquisa, Lucas evidencia como esses grupos mobilizam múltiplas expertises — científicas, técnicas, territoriais e experienciais — para interpretar a crise hídrica, legitimar suas denúncias e contestar a atuação de grandes grupos econômicos. Em vez de tratar conhecimentos tradicionais e científicos como universos separados ou opostos, o autor demonstra como eles frequentemente se atravessam, se conectam e se influenciam mutuamente.
A pesquisa também dialoga diretamente com debates centrais dos Estudos Sociais da Ciência e Tecnologia ao problematizar a ideia de neutralidade científica. Lucas argumenta que ciência e tecnologia são práticas situadas, produzidas por sujeitos concretos e atravessadas por relações de poder. Nesse sentido, o trabalho chama atenção para as desigualdades epistêmicas que fazem com que narrativas de grupos tradicionais sejam sistematicamente desconsideradas nos espaços de tomada de decisão, apesar de sua profunda capacidade de interpretar transformações ambientais em seus territórios.
Ao receber o Prêmio ESOCITE.br, Lucas destacou a importância do reconhecimento institucional para jovens pesquisadores e enfatizou o papel fundamental da orientação acadêmica e das redes coletivas de pesquisa em sua trajetória. O autor também ressaltou a relevância da manutenção da categoria de Trabalhos de Conclusão de Curso no prêmio, entendendo-a como uma forma de incentivar novas gerações de pesquisadores no campo CTS. Além disso, pediu destaque à importância do grupo de pesquisa Ciência, Tecnologias e Públicos (CTP/UnB), do qual participa e que considera essencial para sua formação acadêmica.
Mais do que uma investigação sobre a crise hídrica no Oeste baiano, o trabalho de Lucas contribui para ampliar a compreensão sobre como conhecimentos são produzidos, disputados e legitimados em contextos de conflito socioambiental. Sua pesquisa evidencia que comunidades tradicionais não apenas convivem com os impactos ambientais, mas também produzem interpretações sofisticadas sobre eles, elaborando contra-narrativas fundamentais para pensar ciência, tecnologia e democracia em tempos de crise ecológica.
Pesquisa orientada pelo Prof. Tiago Ribeiro Duarte.
Confiram os trabalhos já premiados pela ESOCITE.BR aqui.

Sobre o pesquisador
Lucas Moreira - Graduando em Ciências Sociais pela Universidade de Brasília (UnB), com pesquisa vinculada ao Departamento de Sociologia (SOL/ICS). Integra o grupo de pesquisa Ciência, Tecnologias e Públicos (CTP/UnB), desenvolvendo investigações sobre conflitos socioambientais, disputas epistêmicas, crise hídrica e mobilização de contra-expertises por comunidades tradicionais no Oeste da Bahia. Seus interesses concentram-se nos Estudos Sociais da Ciência e Tecnologia, epistemologias, justiça ambiental e conflitos por água.
Matéria elaborada por Fernando Monteiro Camargo (bolsista de Jornalismo Científico FAPESP)

